Avançar para o conteúdo principal

Reflexões sobre o trabalho colaborativo

E se os professores dessem aulas e submetessem o currículo das suas diferentes disciplinas a um trabalho de pares? E se os alunos tivessem ocasião de conhecer os colegas de toda a escola ou de outras escolas durante o ano lectivo? Esta proposta pode assustar e provocar inseguranças em professores, novos e velhos, em alunos, novos e velhos, na instituição e nos encarregados de educação. Mas é uma proposta.

Imagine-se a hipótese de os tempos lectivos serem administrados por ciclos de ensino-aprendizagem. Imagine-se, também, que o primeiro período tinha 14 semanas de aulas, o segundo período 13 semanas de aulas e o terceiro período 9 semanas de aulas, como o ano lectivo de 2024/25. Agora, imagine-se a possibilidade de, ao fim de 3 semanas de aulas, haver 1 semana de trabalho colaborativo que envolvesse professores e alunos e trouxesse para a sala de aula todas as referências curriculares ensinadas na instituição e, sob o signo da interdisciplinaridade, da cooperação e da comunicação, resolvesse assuntos de compreensão, aplicação e avaliação. Ou seja, imagine-se que os alunos do 6º ano de escolaridade teriam a oportunidade de misturar a matéria leccionada em História e Geografia de Portugal com a de Ciências Naturais ou que os alunos do 12º ano iriam misturar a matéria de Geografia, nomeadamente, o desenvolvimento económico e social diferenciado, com matéria de Filosofia, por exemplo, as questões de ética ou de filosofia política.

Tal proposta, no nosso ponto de vista, seria a realização concreta dos processos de diferenciação pedagógica e curricular e substituiria práticas escolares desligadas da realidade, como os actuais projectos de autonomia e flexibilidade curricular, insípidos sob o ponto de vista metodológico e teórico. Ao contrário do que defende Nóvoa, quando sugere que se cumpra o segundo eixo da OCDE, o de colocar a escola no centro da colectividade e organizá-la para que a aprendizagem tenha aí o seu foco, evoluindo do direito à educação para o direito à aprendizagem (Nóvoa, 2012, p. 10), esquecendo que tais práticas partem dos professores para os alunos e não ao contrário, obliterando, por esta via, qualquer exercício de decisão fundamentado no direito a aprender e na prática de aprender a aprender, importa implementar outro tipo de abordagem.

O trabalho colaborativo, que deve assentar em exercícios de especulação, interrogação e desconstrução, fundamentais para testar os limites epistemológicos do currículo, resolveria questões de interpretação do mundo real, retiraria o professor do pedestal magistral e colocá-lo-ia, humildemente, entre seres humanos iguais, de diferente grau de desenvolvimento cognitivo, teórico, epistemológico, técnico, entre outros. Cumprir-se-ia uma didáctica adequada ao aluno e centrada nas suas necessidades de desenvolvimento, fomentar-se-ia uma aprendizagem que estimulasse a compreensão por interacção, comunicação e mediação social, aplicar-se-ia uma diferenciação pedagógica com exercícios diferenciados que partiam da realidade.


Comentários

Mensagens populares deste blogue

Reflexões de um professor precário diante da inovação pedagógica

O PROBLEMA A escola portuguesa depara-se com grandes desafios. O principal é vencer o ensaio de destruição do Estado Social em curso e, com ele, a proposta de um sistema de ensino público e universal. Vive-se uma crise do capitalismo e da sua expressão social-democrata, sujeita ao absolutismo das posições neoliberais que pretendem derrotar as formas sociais saídas do pós-guerra sob a falsa bandeira da liberdade de escolha. A escola pública está sob ataque e, com ela, a profissão de docente. Essa investida manifesta-se, em primeiro, através da publicação dos rankings , forma dissimulada de exposição do privilégio social sob uma óptica mercantil, e que coloca escolas a competir com base em recursos desiguais; em segundo, na sobrecarga docente que, por um lado, intensifica o trabalho burocrático e, por outro, inviabiliza a contratação de quadros permanentes, necessários para a redução do número de alunos por turma e subsequente melhoria do processo de ensino-aprendizagem; em terceiro, com...

AVALIAR É PLANIFICAR

  Avaliar é regular o processo educativo, usando procedimentos específicos para cada nível de ensino. Ali se mede a consecução dos objectivos educacionais, após a superação de momentos formativos e sumativos, a se avalia a adequação ao que foi planificado. Porém, avisa Maria Cândida Proença, os objectivos gerais e os conteúdos não são bastantes para leccionar qualquer matéria. É indispensável prever o curso das aprendizagens e evitar o improviso, lesivo para a díade fundamental no processo de ensino-aprendizagem porque introduz a desconfiança, a apatia, o desânimo e o descrédito na relação. Assim, são necessárias três coordenadas básicas para estruturar as planificações: em primeiro, definir um esquema conceptual fundamental para o desenvolvimento das aprendizagens que age como um fio condutor; segundo, indigitar as capacidades a desenvolver pelos alunos; terceiro, enunciar os problemas sociais sob os quais se desenvolve a aprendizagem (Proença, 1989, p. 174) . Ou seja, a autora ...

A propósito do trabalho colaborativo

A questão inicia-se a pretexto do ensino diferenciado para alunos com dificuldades de aprendizagem, mas julgamos que podemos ir mais longe e pensar numa mancha horária que pegue nesta problemática e a solucione pela via da cooperação. Gonçalves & Trindade (2010) defendem que os professores devem possuir sensibilidade para entender que as características diferenciadas dos alunos exigem uma prática diferenciada, partindo da hipótese geral de que, ao diferenciar a pedagogia e o currículo, se promove o sucesso escolar de alunos com Dificuldades de Aprendizagem”  (Gonçalves & Trindade, 2010, p. 2063) . Tal posicionamento implica alteração na planificação e na didáctica. Os autores partem da base teórica do social-construtivismo, reforçando a importância da interacção e da proximidade no domínio do ensino e aprendizagem, tanto como valorizam o carácter reflexivo do professor na apreciação das circunstâncias concretas em que constrói a sua acção. A literatura informa que o insuce...