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Reflexões de um professor precário diante da inovação pedagógica



O PROBLEMA

A escola portuguesa depara-se com grandes desafios. O principal é vencer o ensaio de destruição do Estado Social em curso e, com ele, a proposta de um sistema de ensino público e universal. Vive-se uma crise do capitalismo e da sua expressão social-democrata, sujeita ao absolutismo das posições neoliberais que pretendem derrotar as formas sociais saídas do pós-guerra sob a falsa bandeira da liberdade de escolha. A escola pública está sob ataque e, com ela, a profissão de docente. Essa investida manifesta-se, em primeiro, através da publicação dos rankings, forma dissimulada de exposição do privilégio social sob uma óptica mercantil, e que coloca escolas a competir com base em recursos desiguais; em segundo, na sobrecarga docente que, por um lado, intensifica o trabalho burocrático e, por outro, inviabiliza a contratação de quadros permanentes, necessários para a redução do número de alunos por turma e subsequente melhoria do processo de ensino-aprendizagem; em terceiro, com a naturalização da indisciplina e da violência escolar, desligando-a oportunamente do contexto em que ocorre, ensejo para fazer valer as teses racistas e xenófobas de partidos de extrema-direita; em quarto, nos riscos decorrentes da digitalização do ensino e segregação social que daí pode advir; em quinto, na ideia de que a educação é um bem e não um direito, subjugando-a à lógica liberal expressa no actual modelo de autonomia e gestão das escolas, empresarial, burocrático, centralizado, vinculado a interesses municipais estranhos ao universo escolar e marginalizador de professores, e à concepção ideológica de combate às ciências sociais e humanas em detrimento das áreas cientificas; em sexto, na sobrevalorização da avaliação sumativa, expressa nos exames nacionais e provas de aferição, em detrimento da avaliação formativa, no controlo do currículo escolar e na desconfiança a que determinadas áreas são votadas, nomeadamente, o ensino profissional, a educação ao longo da vida, a educação de adultos e a formação profissional docente, inscrita sob uma lógica perversa e avessa à valorização profissional real com reflexo imediato na carreira docente. Estes são alguns dos problemas que mais incomodam.

Porém, mais do que alinhar nos reparos sobre a falta de preparação dos professores para integrarem massivamente os recursos tecnológicos na sala de aula, considero que o seu uso excessivo e desprovido de critérios pedagógicos afasta os alunos de compromissos que requerem presença física e não apenas presença mediatizada por um ecrã. Em vez de educar, estamos a produzir efeitos contrários: isolamento, vício e alienação. Os recursos digitais são importantes, pois alinham-se com uma sociedade de cultura visual e facultam recursos valiosos que não possuíamos há uns anos atrás, mas não podem ser dominantes, uma vez que estaríamos a destruir competências que requerem o contacto para desenvolver o afecto, o compromisso, a cooperação, a linguagem, entre outros. Dentro dessa panóplia de recursos, há muito lixo manifesto em actividades e conteúdos que, arvorando-se de pedagogia e de didáctica moderna, atiram o pior preparado para o pesadelo da incomunicação.

Neste último campo, considerando que o desafio da digitalização do ensino é um assunto naturalizante, simplificador e hiperbólico, e referindo-me especificamente ao trabalho realizado no ensino básico, procuro providenciar o máximo de informação aos alunos recorrendo a uma diversidade de fontes que considero proveitosas: literatura científica ou adaptada ao público juvenil, como romances juvenis ou banda desenhada, documentos fac-similados, mapas e demais representações cartográficas, documentários, páginas de internet devotadas à análise da dinâmica do clima, à estatística e à análise social, as visitas de estudo a locais de interesse arqueológico e histórico.

O fomento do pensamento crítico, patente no PASEO, não é exclusivo deste tempo histórico nem se resolve com o uso massificado de tecnologia na escola, actuando como panaceia para os seus principais problemas: a iliteracia, as qualificações e a crise nas trajectórias de mobilidade social dos estudantes são assuntos mais graves e preocupantes e o uso de telemóveis na sala de aula como estratégia de diversificação de actividades lectivas não o resolvem.

Em todo o caso, na sala de aula, o fomento o trabalho cooperativo assente em resolução de problemas e uso regrado de tecnologias específicas para cada disciplina, sempre orientada por objectivos de aprendizagem e critérios de avaliação claros, é importante. Por exemplo, na área de Geografia e munido de formação especializada, deve incentivar-se o uso de ferramentas digitais como o Google Earth na elaboração de trabalhos de levantamento cartográfico ou de contextualização de situações. Na área da História, importa fornecer informações contextualizadas sobre o tempo histórico, apresentando fotografias, documentários, iconografia específica ou documentação coeva sobre o tema. 

PLANEAR

O planeamento de uma disciplina obedece aos programas curriculares, que simplificam a tarefa. Desta forma, no início de cada ano lectivo, ao constituírem-se os objectivos de aprendizagem e os critérios de avaliação, a planificação é feita por inerência. Porém, e isso é reconhecido pelos colegas, é prática comum a planificação ser modificada sucessivamente: inicialmente, após as primeiras reuniões intercalares e se for observada a imperícia dos alunos para atingir os objectivos, a meio do ano lectivo, na eventualidade dos resultados não serem os esperados, e, finalmente, nas reuniões de avaliação do último período, de modo a cumprir os objectivos mínimos e ceder às pressões externas e internas. É a realidade da escola, existem poucas formas de interferir e angustiam muitos professores que se confrontam com a conhecida sentença de José Mário Branco: o problema é de todos e não é de ninguém, há culpa de todos em geral e não há culpa de ninguém em particular.

Todavia, a organização de uma aula parte de um tópico em estudo. Por exemplo, falar em coordenadas geográficas implica arrastar assuntos de cartografia. Nesse caso, a transmissão é lenta e metódica por ser uma matéria complexa que necessita de ser tratada com cuidado e adicionada alguma componente lúdica à mistura. Importa dar noções de litosfera, hidrosfera e biosfera e depois direccionar o estudo para as tipologias de projecção cartográfica, as escalas e os seus tipos específicos. A partir daí, falando dos elementos geométricos de localização terrestre, podem ser feitas várias actividades formativas: a) a consulta dos horários nos distintos países, que posteriormente se associam à gradação e medição do tamanho dos fusos horários em graus, minutos e segundos, procurando estimular a curiosidade dos alunos em realizarem os cálculos autonomamente; b) a captação de imagens de satélite; c) o recurso ao Google Earth; d) a descrição de viagens realizadas pelos alunos; e) a elaboração de trabalhos sobre algumas particularidades.

Em suma, as metodologias e a didáctica centram-se em métodos expositivos, demonstrativos e exploratórios: não se deve dizer tudo, mas estimular à pesquisa e então aí, de forma personalizada, adicionar informação de acordo com a sugestão do aluno na procura de caminhos novos.

COMO PROGRAMAR UMA AULA?

A aula pode começar com a enunciação do sumário e marcação de presenças, seguindo-se um resumo da aula anterior e contextualização da matéria proposta para a aula presente. Segue-se a aula propriamente dita, que pode decorrer com exposição de matéria, resolução de fichas de aplicação ou ainda de qualquer trabalho marcado. Entendo os trabalhos de grupo como acções de orientação e de aprendizagem. O professor deve colocar-se ao lado dos alunos para os ajudar na pesquisa e a elaborar textos nos diferentes suportes. Além desta prática regular, que pretende capacitar os alunos para a pesquisa, outras práticas ligadas à avaliação formativa específica podem ser tratadas na sala de aula.

EXEMPLOS DE INOVAÇÃO PEDAGÓGICA

Como tenho deambulado por níveis de ensino diferenciados, cito algumas inovações pedagógicas feitas ao longo da vida profissional.

No ensino profissional trabalhei regulamente com projectos práticos e em conjugação interdisciplinar, forma de motivar os alunos para a apreensão de conteúdos fundamentais e de os situar profissionalmente;

No ensino superior, desde a altura em que iniciei a minha função como docente, em 2008, promovi a realização de seminários onde se apresentava o resultado dos trabalhos de pesquisa executados pelos alunos e desenvolvidos ao longo de um semestre ou totalidade do curso. Não era prática nas universidades por onde passei, seguidoras de uma didáctica que assentava na exposição do conhecimento docente, passou a ser por influência de directrizes europeias. Como sempre, as propostas de um professor português, precário e convidado, valem menos do que as propostas de um americano, mesmo que ele nos copie. Num primeiro caso, os alunos foram convidados a formar grupos de trabalho e a operar de acordo com as regras do trabalho científico, elaborando um artigo que cobria três UC e apresentando-o em formato de webinar. O artigo e a apresentação faziam parte da avaliação, eram enquadrados e comentados por especialistas na área científica em questão, tarefa facilitada pelo recurso a tecnologias digitais. Estávamos na altura da pandemia, foi o recurso adequado para não importunar o normal curso das aulas. Num segundo caso, os alunos apresentaram o resultado de um trabalho pesquisa sistemática realizada durante dois anos lectivos num evento científico enquadrado por docentes que, tal como no primeiro caso, comentavam e faziam apreciações críticas ao produto. O objectivo para ambos os trabalhos foi colocar os alunos diante da realidade social, contactar com ela com base em referenciais teóricos, possibilitando o desenvolvimento de uma lógica de orientação e tutoria, e estimular a interdisciplinaridade. A referência pedagógica usada classifica-se como “orientação por pares” ou “tutoria aplicada”, valorizando o sistema da discussão global gerada entre o grupo, entre o grupo e o professor, entre o grupo, o professor e o especialista convidado.

No ensino secundário e básico, com as mesmas acções e intenções expostas na alínea anterior, mas adaptadas ao nível cognitivo dos alunos, trabalhei da mesma forma. Neste caso, os trabalhos de grupo eram feitos em duas circunstâncias: nos dois primeiros períodos como elemento para avaliação formativa e sumativa, ou no último período, resultado de uma negociação com o aluno sobre a estimativa da sua nota. Procurou-se estimular a interdisciplinaridade, tornada sistemática no diálogo realizado entre teoria e dados empíricos; 

Em suma, o que se pretendeu foi trazer inovações curriculares centradas na criação de rotinas de aprendizagem colaborativa e fomento do pensamento crítico.

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