Avançar para o conteúdo principal

A propósito do trabalho colaborativo

A questão inicia-se a pretexto do ensino diferenciado para alunos com dificuldades de aprendizagem, mas julgamos que podemos ir mais longe e pensar numa mancha horária que pegue nesta problemática e a solucione pela via da cooperação.

Gonçalves & Trindade (2010) defendem que os professores devem possuir sensibilidade para entender que as características diferenciadas dos alunos exigem uma prática diferenciada, partindo da hipótese geral de que, ao diferenciar a pedagogia e o currículo, se promove o sucesso escolar de alunos com Dificuldades de Aprendizagem” (Gonçalves & Trindade, 2010, p. 2063). Tal posicionamento implica alteração na planificação e na didáctica.

Os autores partem da base teórica do social-construtivismo, reforçando a importância da interacção e da proximidade no domínio do ensino e aprendizagem, tanto como valorizam o carácter reflexivo do professor na apreciação das circunstâncias concretas em que constrói a sua acção.

A literatura informa que o insucesso escolar deriva do conflito entre o saber transportado pelas crianças para a escola e o saber dos professores corporalizados na instituição. Construindo uma relação autoritária em que o professor estabelece os critérios de ensino e aprendizagem com base nos seus interesses magistrais, omitindo, por essa via, os interesses dos alunos no mesmo processo de obtenção de conhecimento, gera-se um fenómeno de incompreensão mútua que desemboca em insucesso e reprovação.

As dificuldades de aprendizagem, muitas vezes, encobrem uma didáctica errada que desvaloriza a mediação e o trabalho em pares em detrimento de uma atenção excessiva à individualização (Gonçalves & Trindade, 2010, p. 2066). Ou seja, afirmam os autores, os professores “consideram a diferenciação curricular como sendo uma forma de determinar níveis de exigências para diversos públicos escolares [levando-os] a tomar dois caminhos, o primeiro, a lógica próxima da redução e/ou simplificação, com diferentes níveis de exigência; o segundo, propõe percursos curriculares mais centrados nas aprendizagens práticas, pois são entendidos como mais simples” (Gonçalves & Trindade, 2010, p. 2066).

As propostas de resolução deste problema passam pelo aumento das alternativas que visam adaptar-se às “necessidades e expectativas particulares de cada aluno” (Gonçalves & Trindade, 2010, p. 2067) e fazem com que o professor desconstrua o currículo e o construa de acordo com a diversidade contextual, tornando-se um agente de acção na decisão curricular. O processo é complexo e deve considerar a complexidade social do contexto. Neste caso, a diferenciação curricular é uma pedagogia dos processos (Przesmychi, citado em Gonçalves & Trindade, 2010, p. 2067).

O processo de diferenciação deve criar situações flexíveis de aprendizagem que decorrem das necessidades especificas dos alunos e promovam espaços de cooperação entre professores e alunos e entre disciplinas. A interdisciplinaridade alicerça-se na preocupação de definir os currículos por competências e não por objectivos.

É um facto que os professores referem as dificuldades em segmentar as actividades de modo a atender às necessidades de alunos com dificuldades de aprendizagem. Isto implicaria alterar o formato das aulas, nomeadamente, o tempo devotado a cada disciplina. Poder-se-iam agrupar ou criar momentos de trabalho conjunto e interdisciplinar? Propomos esta mancha horária e explicamo-la de seguida. 


Além da distribuição curricular pela sua carga horária, salientamos o seguinte:
a) a eliminação dos apoios às disciplinas de Português e Matemática e sua substituição por tempos de Trabalho Colaborativo de Ciências Exactas e Línguas. Pretende-se que os alunos resolvam as suas dificuldades com trabalho cooperativo e por pares, envolvendo-se em projectos vinculados ao real que visem resolver as situações de problemas de aprendizagem;
b) a criação de mais espaço colaborativos em outros domínios curriculares, que servirão para desenvolver trabalhos mediados pelo professor ou grupo de professores da área; 
c) a promoção da interdisciplinaridade, da reflexão, da abordagem criativa; 



 

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Reflexões de um professor precário diante da inovação pedagógica

O PROBLEMA A escola portuguesa depara-se com grandes desafios. O principal é vencer o ensaio de destruição do Estado Social em curso e, com ele, a proposta de um sistema de ensino público e universal. Vive-se uma crise do capitalismo e da sua expressão social-democrata, sujeita ao absolutismo das posições neoliberais que pretendem derrotar as formas sociais saídas do pós-guerra sob a falsa bandeira da liberdade de escolha. A escola pública está sob ataque e, com ela, a profissão de docente. Essa investida manifesta-se, em primeiro, através da publicação dos rankings , forma dissimulada de exposição do privilégio social sob uma óptica mercantil, e que coloca escolas a competir com base em recursos desiguais; em segundo, na sobrecarga docente que, por um lado, intensifica o trabalho burocrático e, por outro, inviabiliza a contratação de quadros permanentes, necessários para a redução do número de alunos por turma e subsequente melhoria do processo de ensino-aprendizagem; em terceiro, com...

AVALIAR É PLANIFICAR

  Avaliar é regular o processo educativo, usando procedimentos específicos para cada nível de ensino. Ali se mede a consecução dos objectivos educacionais, após a superação de momentos formativos e sumativos, a se avalia a adequação ao que foi planificado. Porém, avisa Maria Cândida Proença, os objectivos gerais e os conteúdos não são bastantes para leccionar qualquer matéria. É indispensável prever o curso das aprendizagens e evitar o improviso, lesivo para a díade fundamental no processo de ensino-aprendizagem porque introduz a desconfiança, a apatia, o desânimo e o descrédito na relação. Assim, são necessárias três coordenadas básicas para estruturar as planificações: em primeiro, definir um esquema conceptual fundamental para o desenvolvimento das aprendizagens que age como um fio condutor; segundo, indigitar as capacidades a desenvolver pelos alunos; terceiro, enunciar os problemas sociais sob os quais se desenvolve a aprendizagem (Proença, 1989, p. 174) . Ou seja, a autora ...