A ideia de sucesso escolar pode-nos conduzir a muitos caminhos ou discursos. Apontamos os dois, em capitular: o sucesso escolar é aprender, o sucesso escolar é transitar de ano e não ficar retido.
Sob estes aspectos, e considerando a dinâmica das escolas, feita por pessoas que convivem com as circunstâncias sociais e com as suas próprias circunstâncias existenciais, queremos fazer alguns comentários.
O percurso académico de um aluno é construído pelos professores. Em muitos casos, com a ajuda dos pais que influenciam o processo ou, na sua ausência, com a selecção arbitrária de alunos que possuem perfil para cursos supostamente mais complexos, porque os rankings de média de entrada assim o dizem, e a atribuição de cursos de menor complexidade aos alunos com pior rendimento. Desta forma, a atribuição de níveis ou a selecção dos alunos, por exemplo, no final do 9º ano de escolaridade, faz-se nos conselhos de turma por influxo dos conselhos directivos, sujeitos a ordens superiores emanadas pelas direcções regionais e nacionais. É lá que os níveis ultrapassam o planificado previamente, entrando em campo a subjectividade e o gosto pessoal que nunca existiu durante o ano lectivo. Repare-se que a flexibilidade que não existiu durante o processo formativo, passa a existir no processo classificativo, agora em todos os níveis de escolaridade. Tal prática assenta em representações sociais a que os professores não estão imunes, a pressões institucionais e pessoais.
O percurso formativo de um aluno, concebido no âmbito de um ensino expositivo e de avaliação sumativa, visando obter uma classificação quantitativa para progredir academicamente, é observado como a forma mais ineficaz de produzir aprendizagem. Todavia, à solicitação do dever de ensinar populações heterogéneas, diferenciando o ensino, resiste uma camada docente, a instituição e a própria forma de olhar para a aprendizagem: pede-se a reprodução dos conteúdos, não a sua crítica, dado que alguma da classe docente não tem condições para lidar com assuntos de divergência ou heterogeneidade, interpretando-os como distúrbios comportamentais, por vezes.
Visto que a questão não se coloca na resolução de problemas epistemológicos, o que é o sucesso escolar? Dominar a matéria, colocando questões complexas e resolvendo-as, ou reproduzi-la?
Julgamos que é necessário dar os seguintes passos para a concretização de uma ideia de educação de sucesso escolar e aprendizagem real.
a) incrementar a relação com a comunidade no sentido de fornecer aos alunos informações reais sobre, por exemplo, o trabalho numa fábrica e as suas profissões ou o trabalho num teatro e as suas profissões. Só assim estaríamos capazes de ensinar a virtude da matemática na formação de engenheiros mecânicos ou a importância do português na formação de actores, colocando o ônus da decisão no aluno e não no professor e demais funcionários escolares. Ao professor cabe orientar, seguindo os preceitos deontológicos. Não interferir com o gosto do aluno, que se desenvolve com estudo e empenho, é vital.
b) o pronto prévio levaria a uma organização do ensino, mais vocacionada para o real. Não é a fazer experiências laboratoriais que os alunos ganham gosto pela química, mas a entender a utilidade do seu trabalho no universo da produção do mundo. Embora seja importante o trabalho prático nas aulas, o sucesso escolar seria atingido quando o aluno entendesse a virtude da escola na fabricação segura da sua vocação, fornecendo-lhe as ferramentas necessárias para a sua capacitação intelectual e formação de gosto profissional. É importante vincular a aula à realidade, o que implicaria organizar as aulas de uma forma diferente.
c) uma alteração nos processos de classificação e sua transformação em processos de capacitação, enumerando o percurso com a construção de uma memória permanente do seu trajecto individual. É possível, usando as tecnologias, perceber as informações dos docentes e a inclinação do aluno para uma área onde seria óptimo e não mediano. Este processo de capacitação seria uma forma de avaliar, garantindo as qualidades vitais para o desempenho de uma actividade profissional, seja ela qual for.
d) uma alteração do formato de funcionamento da escola, agora apoiada em escolaridade obrigatória de 15 anos (do básico à licenciatura) e facultativa (do mestrado ao doutoramento e especializações). Sob ela subsistiria a ideia de que o trânsito escolar decorre da resolução cumulativa de tarefas, de tempo de execução variável, cuja conclusão seria produzir cidadãos capacitados socialmente. A incapacidade não existiria, porque as abstracções haveriam de ser resolvidas numa fase do percurso.
e) uma alteração da sociedade em si, orientada para a fruição da capacidade individual de trabalho que seria realizada de acordo com a informação clara das necessidades colectivas e não apenas da profissão da moda e mais bem remunerada.
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