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REFLEXÕES A PARTIR DE LARROSA

 



Em 2006 Ana Nunes de Almeida e Maria Vieira davam conta do seguinte fenómeno: por causa do regime demográfico da sociedade portuguesa, a escolarização entra num processo de competição, uma vez que a percentagem de crianças no ensino é cada vez menor. Em simultâneo, o estado delega competências de gestão à escola, obrigando-as a reagir sobre o contexto local e a encontrar opções para o seu financiamento e funcionamento. Daí se explica a escolha de cursos de formação profissional e algumas opções disciplinares, gerando, como apontam as autoras, um mercado competitivo sob o qual se exerce pressão no domínio das escolhas (Nunes de Almeida & Vieira, 2006, p. 138). O estado, dominado pelos princípios da economia liberal e das corporações, cabe-lhe apenas o papel de regular o seu funcionamento. Porém, ao assumir esta posição, fundamenta a reivindicação colocada em prática pelos que pretendem a liberalização do ensino em nome da “livre escolha”, analisada por Almerindo Afonso. Como tal, afirma este autor, é impossível falar em políticas educativas sem falar numa teoria de estado (Janela Afonso, 2001, p. 35),

O problema da mercantilização do ensino gera um conjunto de riscos como, por exemplo, a recusa de matrículas a alunos com um histórico académico ruim para o ranking da escola ou o agrupamento das turmas de acordo com um sistema pré-definido que inviabiliza a heterogeneidade (Nunes de Almeida & Vieira, 2006, p. 139). Ou seja, a “livre escolha” monta um sistema assente em critérios académicos e sociais: o melhor ranking, o melhor ambiente social para os mais favorecidos.

A sociedade do conhecimento e a ideia de que a educação ao longo da vida é a solução, fundamentam-se nos princípios da relação entre educação e trabalho, ou seja, promoção do capital humano num ambiente de competição económica, inviabilizado pelas estatísticas de desemprego.

A crise actual, pelo menos, a crise mencionada por alguns actores sociais, é caracterizada por esta ideia: a escola não está preparada para o mundo pós-alfabético, que existe uma distorção entre o sistema educativo e o mundo do trabalho, e que a escola defende valores desactualizados, como o interesse publico e a igualdade, como diz Jorge Larrosa. 

Porém, a escola é talvez um dos últimos repositórios da igualdade, apesar das críticas à homogeneização que promove. Defender a igualdade nos dias que correm é ser reaccionário, diz Larrosa. Com a privatização das escolas, foi introduzida a logica da competitividade, o primado da psicologia em detrimento da pedagogia, a formação dos professores nas novas formas de avaliar e ensinar, recorrendo às tecnologias, uma nova forma de negócio, para aprofundar o processo de ensino como uma questão individual.

A questão situa-se em manter uma ideia séria de educação num mundo novo, afirma Larrosa, fundando na necessidade comum de educar para o futuro e nos pressupostos da democracia. A pluralização da escola está a torna-la irreconhecível e as disciplinas que reflectem sobre o fundamento da educação e da escola estão a ser apagadas, em detrimento da psicologia e da didáctica. Em simultâneo, como a escola se converteu num espaço mercantilizado, os pais colocam os filhos na escola para obterem um lucro posterior com a formação dos filhos. Por sua vez, a literatura científica, predominantemente a produzida nos estados unidos da américa, estimula a maximização do lucro desde tenra idade, com a estimulação precoce.

A educação é algo que o professor faz, em contraciclo com as instituições que pretendem que ele faça uma administração dos recursos e do currículo gerado em instâncias internacionais, sem os criticar. 

 

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