É curiosa a relação que temos com a ciência.
Quando
Copérnico substitui o modelo geocêntrico de Ptolomeu pelo seu, heliocêntrico, a
ciência prática, interessada na
transformação do mundo, tomava o lugar da ciência teórica mais preocupada em compreendê-lo. De igual modo, Galileu,
ao pôr em dúvida o estagnado conhecimento aristotélico, postulava um único
conhecimento universal fundado na experiência e observação conducente à
produção conceptual explicativa, já que o antigo modelo, que concebia as leis
da Física como passagem de “potência” a “acto”, iludia as realidades físicas
concretas, como o peso, por exemplo. Acresce que ao homem da Idade Média
faltava a visão de infinito, acreditando que o mundo era um sistema fechado
onde Deus ocupava o centro e a “teologia a forma suprema do saber”
A revolução científica solidificou-se, institucionalizando as suas práticas discursivas e corporativas: a circulação de jornais, de revistas, o aparecimento e florescimento das sociedades onde se discutiam as recentes novidades na investigação, foram um motor essencial para a sua afirmação; a Química alia a investigação crítica a práticas laboratoriais; a Biologia progride, alicerçada na experiência de vivissecção de animais e comparação com modelos humanos patentes nas ilustrações de anatomistas. Esta transformação pôde produzir a concepção moderna de “vida”, algo que decorre da observação de determinados processos biológicos e que vêm substituir a ideia aristotélica de “geração espontânea”. O modelo mecanicista de interpretação da natureza começou a ser adoptado, sendo a máquina a metáfora privilegiada para explicar o mundo, o indivíduo, entre outras coisas: a teoria mecanicista resumia-se a “movimento” e “matéria”, sabendo que a verdade se encontra na natureza e deve ser comprovada de forma empírica.
O
objectivo dos “modernos” era demonstrar que determinadas conclusões
decorrem de dadas causas e uma vez que se conhecem ambas e se consegue
estabelecer um paralelismo entre elas, estaremos a caminho do conhecimento.
Todo o processo assentava numa estrutura argumentativa baseada em premissas
axiomáticas que produziam respostas prévias à experiência, conhecedores da
modulação do dado experienciado, pois “a experiência que se produzia e tornava
pública através da comunicação do protocolo experimental era, portanto,
semelhante à experiência que resultaria da execução imaginada da experimentação
em pensamento. Não importa saber se, numa dimensão física, Galileu executou, ou
não, essas manobras experimentais em particular.”
Isto é muito bonito, mas um aluno dos graus de ensino mais precoces desconhece a história da ciência, a sua metodologia, a sua epistemologia. E desconhece a totalidade das categorias e conceitos utilizados. Esse saber é património do professor, que o deve legar ao aluno de uma forma metodologicamente correcta. E necessário transpor a ciência para a escola.
Como tal, a didáctica
situa-se no cruzamento entre conhecimento e a comunicação, cabendo-lhe
“compreender, contextualizar e encontrar os modos e os momentos mais adequados
para comunicar o conhecimento de forma interactiva”
A
transposição didáctica situa-se na forma como se organiza a informação e, no campo
da aprendizagem, se transforma em conhecimento. É um conceito cunhado por
Michel Verret, um sociólogo do trabalho, e amplificado por Yves Chevallard, um matemático
Este último autor considera a didáctica como um sistema que organiza a relação entre professor,
alunos e conhecimento
O trabalho
de transformação de um objecto de saber a ensinar num objecto de ensino
chama-se “transposição didáctica”

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